Loading

Cisne Negro (EUA, 2010)

| segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Os tortuosos caminhos do corpo

1) Uma fábula psicanalítica

Uma primeira maneira de se considerar este filme seria pelo prisma do conteúdo, no caso, pelo viés do roteiro e da intensa vertente psicanalítica do tema. Nossa protagonista, Nina Sayers, é uma dançarina de balé, impulsionada à perfeição e cercada de símbolos bastante controversos de sexualidade. Ela não tem pai ou figuras paternas ao redor, e trabalha num ambiente predominantemente feminino (a dança clássica), mas governado por machos autoritários, patriarcais e ultra sexuados. Ela é adorada por uma mãe que a cria de maneira possessiva, projetando suas frustrações (a mãe também era uma bailarina mal-sucedida), traçando um caminho frutuoso e sabotando cada possibilidade de sucesso de sua filha. Nina tem pulsões sexuais, mas morre de medo delas serem percebidas.

Este filme ilustra diversos conceitos centrais ao estudo da psicanálise: a perversão, a projeção (de características de si ao outro, pela dificuldade de lidar com elas), as pulsões de vida (o sexo) e de morte (da mãe, de si, de Beth), a retorno do recalcado (fato reprimido que se manifesta de modo oblíquo, inconsciente), o complexo de Édipo (emancipação natural em relação às figuras materna e paterna), a esquizofrenia ou comportamento borderline, as alucinações, o transe, os pesadelos como revelação do inconsciente... A grande ação deste filme se passa dentro da personagem – razão pela qual Nina é uma figura tão complexa, e o fato de domar tal personagem dá tanta credibilidade à atriz Natalie Portman. Um dos maiores méritos deste “thriller psicológico” é nos mergulhar num universo visto pelos olhos da protagonista (e não do exterior, como se faz com os mártires e vítimas), sem jamais determinar o que é real e o que é alucinação. As relações com Lily, esta projeção sexuada e emancipada da protagonista, e que aparece apenas quando nossa personagem necessita um contraponto, são reais ou imaginárias? A presença da mãe a cada vez que Nina manifesta pulsões sexuais é real ou imaginária?

Cisne Negro se organiza como uma espécie de fábula, com conteúdo moral e psicológico marcante como geralmente neste gênero literário, abordando no caso o amadurecimento e a descoberta da sexualidade. Todos os rituais estão presentes nesta grande menina que, para crescer como adulta, é forçada simultaneamente a tornar-se adulta (o professor macho que estimula sua sexualidade) e a permanecer criança (a mãe que troca suas roupas, a tranca em casa). Este ser amorfo (a bela garota que se torna literalmente um cisne negro assustador) tem desejos sexuais sem objetos para depositá-los, sangra por todos os orifícios do corpo (notável quantidade de cortes e perfurações), ama e odeia a colega Lily, ama e odeia a sua mãe, ama e odeia o balé. Nina é um personagem amável e detestável, ela é de uma complexidade ímpar, capaz simultaneamente de gaguejar em frente às colegas e morder os lábios do diretor abusivo, roubar os objetos da bailarina fracassada e ir devolvê-los com pedidos de desculpa. Ela é uma personalidade em transição, e para isso a metáfora trágica dos dois cisnes combinados na mesma pessoa, o negro e o branco, encaixa-se perfeitamente ao caso.

2) Um cinema físico

A equipe técnica e artística de Cisne Negro busca maneiras bastante ousadas e coesas de tornar o filme perturbador, mas não no sentido voyeurista e polemista do termo, pelo contrário. Enquanto a polêmica simples opta pelo espetáculo do explícito e das figuras de exceção (o estupro de 15 minutos em Irreversível, por exemplo), a perturbação do filme americano vem ou dos prelúdios simples, banais (unhas do pé que se cortam, mostradas como verdadeiras cenas de horror), ou da imagem que se insinua, que nunca dura o tempo suficiente do olhar atento (os reflexos assimétricos do espelho, o monstro nos bastidores). A imagem segue portanto as regras do suspense, sugerindo mais do que mostrando, mas alternando entre sugestões banais e imagens grotescas (a pele que se descasca, o homem idoso que se acaricia no metrô). O universo em torno de Nina é potencialmente perigoso como esta travessia escura que ela é obrigada a tomar para chegar em casa. A passagem à emancipação feminina implica encarar estes becos onde existem, vejam só, sua cópia liberada e libertina, pela figura de Lily.

Para atingir este resultado, foram usados recursos conhecidos da impressão de realidade, mesmo para as cenas mais fantásticas. A câmera livre, a imagem granulada e subexposta, a montagem aleatória (corta-se como se a câmera acabasse de perceber outro ponto de interesse fora de quadro), a música repetitiva: tudo nos indica, contraditoriamente, que aquelas alucinações são reais, ou pelo menos tornam-se reais pelos olhos de Nina. O espectador é convidado a sentir a dor física de Nina, a humilhação de Nina, a partilhar a angústia do dedo que sangra e o prazer das diversas cenas de masturbação. Os corpos estão lá para serem vistos (vide o balé), tocados, sentidos, usados. Toda esta orquestração entre suspense, fantasia e impressão de realidade fazem de Cisne Negro uma experiência que não pretende divertir seu espectador, mas torná-lo ativo na história, sem julgar, mas sentindo pelo corpo-objeto da protagonista.

3) Um sucesso comercial

O resultado de um tal encontro de gêneros e de temas foi um filme múltiplo, mas coeso, vendido com uma distribuição comercial das mais eficazes. Afinal, existe aqui um pouco para todos os gostos: suspense, ação, drama, cenas de sexo entre mulheres, imagens “artísticas” singulares e pessoais, currículo com festivais prestigiosos aos olhos da crítica (Veneza) e premiações que felicitam a indústria e o público (Oscar). A complexidade desta estratégia de lançamento também inclui a venda de um produto que se encaixa na categoria “filme de arte” (vide os quatro magníficos pôsteres abaixo) e na categoria “filme para grande público” (vide os três outros pôsteres, com Natalie Portman).

Cisne Negro já ultrapassou nos Estados Unidos a bilheteria simbólica de 100 milhões de dólares, além de mais 50 milhões no exterior, fato raro para uma obra que custou apenas 17 milhões de dólares para ser realizada. Ela também se tornou o filme “tendo a dança como tema” com maior bilheteria da história (segundo Box Office Mojo, site profissional do mercado de cinema), e uma das estreias mais bem sucedidas na França, com cerca de 3500 espectadores na primeira semana, bilheteria digna de Harry Potters e outras grandes produções do gênero. Não é de se espantar que a indústria queira parabenizar esta obra com Oscars, que os críticos queiram valorizar o “autor” Darren Aronofsky e que a imagem de Natalie Portman, menina-mulher atualmente grávida, funcione como porta-voz perfeito para este projeto. Independentemente da qualidade do filme, Cisne Negro é um enorme sucesso de publicidade e distribuição que, como se diz no jargão da indústria, “soube encontrar o(s) seu(s) público(s)”.




Cisne Negro (Black Swan, 2010)
Filme norte-americano dirigido por Darren Aronofsky.
Com Natalie Portman, Mila Kunis, Barbara Hershey, Vincent Cassel, Winona Ryder.

Mais retratos de uma sexualidade perversa e/ou patológica:

6 comentário(s):

{ ANTONIO NAHUD JÚNIOR } at: 6:55 PM disse...

Já estou com overdose de "O Cisne Negro".
Sinceramente, fiquei decepcionado. É por demais sombrio e pretensioso. Vale pela atuação impecável de Natalie Portman.

www.ofalcaomaltes.blogspot.com

{ Bruno Carmelo } at: 10:53 PM disse...

Oi, Antônio,

concordo que o filme seja tanto sombrio quanto pretensioso, mas porque essas características seriam negativas ?

Abraço,

BRUNO

{ Pedro Henrique Gomes } at: 12:43 PM disse...

Bom ponto de vista, Bruno. Falei também dessa questão física do filme, quando escrevi sobre ele. Só acho que Aronofsky mostra mais do que sugere. Até demais (a saber, publiquei resenha no blog). Por essas e por outras acabei não embarcando no espírito do filme.

Você tem Twitter, Bruno.

Aurélie De Sousa at: 11:30 AM disse...

O que é que um filme pretensioso pra você, Bruno ?
Nao entendo que a gente pude achando este film pretensioso...

Beijo

{ Bruno Carmelo } at: 9:26 AM disse...

Oi, Aurélie,

para mim, pretensioso é um filme que se apoia numa ideia de princípio e a explora até o fim, com total certeza da qualidade da realização, sem qualquer forma de hesitação, de leveza, de variação. É o tipo de filme que aposta todas suas fichas numa carta só. Acredito que seja o caso de Cisne Negro, mas não acho que seja necessariamente ruim - neste caso, valeria a pena julgar se tal pretensão seria bem sucedida ou não.

{ Bruno Carmelo } at: 9:27 AM disse...

Não tenho mais Twitter, Pedro, eu apaguei meu perfil recentemente.

Quem sou eu

Minha foto
Jornalista e crítico de cinema, de volta ao Brasil.
 

Copyright © 2010 Discurso-Imagem | Design by Dzignine