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O Poder Da Solidão

| sexta-feira, 12 de setembro de 2008

América frustrada

Primeiro de tudo, ressalva sobre o péssimo título que este filme ganhou no Brasil. O original, muito mais interessante, é The effect of gamma rays on the man-in-the moon marigolds, algo como “O efeito dos raios-gama nas margaridas”. Este título, longo e pouco revelador, é capaz de conter muito sobre a história e a maneira como ela nos é contada que a escolha impactante e vazia da versão em português.

À frente da direção está o também ator Paul Newman, que admite ter aceito esta história pensando na sua esposa, Joanne Woodward, para o papel principal: “Eu comprei esse texto porque pensei que seria um papel impossível de atuar para minha esposa... mas sempre que eu a ponho diante das câmeras, ela me prova o contrário”.

Woodward interpreta Beatrice, mulher cuja amargura se traduz numa espécie de cinismo cruel e tagarela, pronto a responder a qualquer “bom dia” com uma série de ataques sarcásticos e depreciativos. Divorciada, ela passa seus dias a imaginar como mudar de vida (abrir uma loja de bolos, uma casa de chá?), enquanto suas filhas caminham por direções opostas: a mais nova é tímida e apaixonada por biologia, enquanto a segunda, bela e popular, começa a ter ataques epilépticos e teme virar uma mulher excêntrica e solitária como a mãe.

Newman cria uma atmosfera em que as três figuras convivem sem quase interagir, falando sem escutar umas às outras. As explicações apaixonadas sobre as experiências biológicas de Matilda são interrompidas pelos risos de escárnio da mãe, que também frustra as tentativas de Ruth de explicar sua vontade de ser líder de torcida na escola. Pela sua própria vida frustrada, Beatrice tende a não acreditar na possibilidade de futuro das filhas, que ela julga não serem “exatamente um sucesso”.

O diretor aprofunda a solidão e angústia sem nunca cair na dramaticidade exagerada. Tudo é visto por uma ótica introspectiva, silenciosa. Assim, as três são cercadas por personagens que espelham suas vidas: além da senhora moribunda e muda que aluga um quarto na casa, existe a vizinha que sempre fica à janela e nunca muda de posição (“será que ela está morta?”), ou ainda a garota na escola das meninas que joga ácido num gato para ver a reação deste.

As três são essencialmente distantes desse mundo em que vivem. Nenhuma parece pertencer nem à sociedade nem à família. A frustração delas é materializada na casa em que vivem, que se torna cada vez mais suja, bagunçada e escura. (Neste aspecto, o filme de Newman dialoga com Cría Cuervos, de Carlos Saura – ver crítica no blog – em que todas as tristezas familiares ficavam trancadas entre quatro paredes e concretizadas nos cômodos).

Assim, como uma análise sociológica, precisa e científica (como sugere o título original, referente às experiências de Matilda na escola), a narrativa se conduz de maneira linear. É importante ao filme que os personagens não se transformem, não “aprendam”, não vivam momentos extraordinários. Afinal, o objeto de estudo é justamente a rotina comum e triste de três mulheres que não pertencem à sociedade americana de liberdades e oportunidades, de patriotismo e alegria.


The effect of gamma rays on the man-in-the moon marigolds (1973)
Filme norte-americano dirigido por Paul Newman.
Com Joanne Woodward, Nell Potts, Roberta Wallach.
Duração: 1h40.

2 comentário(s):

Anônimo at: 2:03 PM disse...

Caro Carmelo,

bela apreciação,mas por favor, não nos venha a inventar adjectivos para os tantos existentes em português!
Impactante???
Segue uma dica de dicionário que pode te ajudar em caso de dúvida:
www.priberam.pt
Divirta-se!

{ Bruno Carmelo } at: 2:37 PM disse...

Caro anônimo,

minha vez de propor um dicionàrio:

http://dic.busca.uol.com.br/result.html?t=10&ref=homeuol&ad=on&q=impactante&group=0

Abraço.

BRUNO

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Estudante em teoria de cinema, pesquisador em história da crítica e editor do site AdoroCinema.
 

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